Escritor sem variar


JOANA E O HOMEM DE PEDRA I

 

Joana é uma menina linda. Tem sete anos. Não mais do que isso. Sete anos apenas. Magra. De uma magreza quase ossuda. Cadavérica. Ostenta uma barriga cheia, redonda e reluzente sob o sol brilhante de todos os dias. Inchada. Mora em um casebre na rua das três raças. Bem melhor se dizer uma viela. Uma viela milagrosa onde os dejetos humanos são expostos a céu aberto num córrego de água escura que fede tal qual uma fossa e serpenteia entre os casebres de madeira. As moscas voam pelo espaço aéreo como se fossem fadas e pousam na barriga redonda e reluzente de Joaninha. E é nela que põem seus ovos e suas fezes. Do nariz da menina sempre escorre um filete de um líquido pegajoso verde-abacate que desce pelo canto da boca até chegar ao queixo, forçando-a a ficar fungando e chupando toda hora para não sujar o seu vestido roxo que está usando especialmente neste dia para pagar uma promessa da sua mãe. Joana é uma menina linda. Tão linda que dá dó.

Sua mãe é um anjo. Que candura! Uma devota vestida com uma roupa branca para agradar Nossa Senhora. A roupa de retalhos feita, apanhados no lixo da casa de uma costureira, já apresenta certo desgaste acentuado pela sujeira do dia a dia. Mas, quando sorria com uma agonia latente, dizia que Deus é simplicidade... Paz... Amor... Prosperidade... E que três sementinhas são a base da sua fé: pai, filho e espírito santo. Mas, claro, se fossem plantadas no chão daquele que ouve a voz do senhor. Dadivosa, a mãe fizera uma promessa para que, no dia do aniversário de sete anos da Joana, ela, a Joana, fosse à grande Catedral construída no ponto mais alto da cidade para purificar-se dos malefícios da vida. Promessa feita para que Joaninha nascesse. Uma anemia quase consumira o útero criador durante a gestação. Um ritual. Pagar uma dívida materna.

 

(Continua)

 

Anacleto Vieira de Sousa

Cajazeiras, PB, 20 de março de 2009

 

 



Escrito por o poeta amargurado às 11h58
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AVISO

AMIGOS, ESTOU DESDE DE MAIO SEM INTERNET, POR ISSO NÃO ESTOU ATUALIZANDO O BLOG. VOCES PODERIAM ME PERGUNTAR: E AS CASAS DE ACESSO LIVRE? JÁ ME OCORREU ESTE PENSAMENTO, CONTUDO, POR MOTIVO DE SEGURANÇA NÃO FAÇO POST NESTAS CASAS. JÁ ROUBARAM MINHA SENHA E OCORREU ALGUNS PROBLEMAS. AGRADEÇO A ATENÇÃO DE TODOS. ASSIM QUE FOR RESTABELECIDO CONTATO VOLTAREI A POSTAR CRONICAS. MAIS UMA VEZ, MUITO OBRIGADO PELA ATENÇAO.



Escrito por o poeta amargurado às 08h48
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CAIÇARIANAS: Os catadores (Parte I)

 

Apertei bem o nó feito com as pontas do lençol e o lençol se transformou num bornal de catar algodão. Depois era só cruzar os arcos do lençol nos ombros. Estava ajeitado o bornal, aí juntei-me aos outros catadores. Um ao lado do outro. Cada catador pegava duas carreiras de algodão. Baixávamos a cabeça e ficávamos corcoveados por sobre o algodoeiro. De vez em quando um contava uma história engraçada, ou então escarneciam do meu jeito desajeitado de catar algodão, e caiamos numa risada. Aproveitávamo-nos da oportunidade para esticar os espinhaços doloridos por causa da postura incomoda. Parecíamos um bando de besouros brancos depois que enchíamos o bornal.

 

Noutros tempos, nas décadas de 1960 e 1970, a cultura do algodão foi a mais rentável do sítio Caiçara. Quando a safra era boa, todos no sítio saiam ganhando. Vivia-se bem. O dinheiro corria solto. Mobiliava-se a casa. Compravam novos equipamentos para o plantio. Adquiriam lotes de boi e vaca. E no mês de setembro regozijavam-se nas festas da padroeira da cidade de Sousa, ou nas vaquejadas de fim de ano.

 

O sistema de produção beirava o medievalismo. Existiam dois atores deste palco da história: o meeiro e o latifundiário. Em alguns casos entrava um coadjuvante forte: o Banco. O Meeiro era o camponês que não tinha terras e arrendava dos Latifundiários pequenos trechos das propriedades para poder trabalhar. Como não tinham dinheiro para pagar o arredamento das terras, o pagamento se realizava dividindo o produto: de tudo que a terra produzisse, o latifundiário se apoderava da metade. Denominavam-no sistema de meia.

 

Entretanto, nas décadas de 1980 e 1990 os produtores se depararam com a invasão da miséria provocada pelo terrível Bicudo. Além das secas sazonais e dos anos em que as chuvas encharcavam as terras, afogando as plantações, tinham agora o indefectível Anthonomus grandis. É bem sabido que só se produz um remédio quando surge uma doença. Podemos até chamar de efeito positivo-negativo. Para toda afirmação é necessário que existe uma interrogação. Ora, ficou-se sabendo que os estadunidenses foram os primeiros a enfrentar essa praga do algodoeiro. Se foram eles que primeiramente se depararam com efeito interrogativo, eram eles que teriam o remédio para curar esse cancro agrário. Digo remédio para as lavouras, porque para o bichinho o negócio era veneno.

 

O que resultou desta desgraça foi que poucas pessoas investiam no plantio. O pulverizador era importado e o veneno do Bicudo caríssimo. Só quem podia investir eram aqueles que possuíam um bem a mais e podiam penhorar alguma coisa no Banco, ou então vendiam algumas cabeças de gado para conseguir recursos. O pobre Meeiro que encontrasse uma maneira de sobreviver aos novos desafios da lavoura. Meu tempo foi o tempo deste famigerado curculionídeo que sugava o broto do algodoeiro e devastava as plantações, empobrecendo ainda mais aqueles que já eram desafortunados.

 

 

 

Anacleto Vieira de Sousa

Cajazeiras, PB, 05 de maio de 2010

 

 



Escrito por o poeta amargurado às 20h47
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AÇUDEIADE

 

Para que eu possa voar pelos lumes dos egos,

Oriente-me com formas tantas e em essência,

 

Desterrando as memórias de longínquos tempos

E que este seja de outros tempos uma memória, lhe peço.

 

Não deixe que se esvaíam tuas águas turvas e revoltas,

Muito menos que se enxurrem pelas plagas sem destino,

 

Deixe apenas que elas me banhem com leves respingos

E soltem as palavras para que voem como as gaivotas.

 

 

Anacleto Vieira de Sousa

Cajazeiras, PB, 04 de maio de 2010  



Escrito por o poeta amargurado às 15h39
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Caiçarianas: Homenagem ao Homem Sério (Final)

 

Chuva. Quanta alegria traz a água, símbolo de nascimento. A maioria dos seres vivos tem pelo menos setenta por cento do corpo composto por água. A terra possui dois terço banhados por água. Uma criança passa nove meses envolta no liquido amniótico. Somos compostos por água. Embora o Espírito Santo seja fogo, na pia batismal a água benta é quem nos purifica.

 

Foi com esta alegria que o povo do sítio dormiu naquela noite de dezembro do ano passado. O inverno vinha chegando e era preciso cuidar das terras. O dia amanheceu nublado e a terra se esfriara com as águas de dezembro. Por toda várzea se estendia bolsões de água barrenta. Os corredores estavam encharcados e a lama dava na canela. Fazia-se necessário verificar como estavam as terras do cajueiro.

 

Quando as nuvens matutinas se dissiparam, chamou seu fiel cachorro e saiu de casa como todos os anos saia: vestiu uma camisa de botão com longas mangas que protegiam a pele do sol, um chapéu de abas curtas, uma calça velha de linho com a bainha dobrada acima do tornozelo e calçou uma sandália.

 

A lama do corredor das terras do cajueiro é mais viscosa. Tem um trecho de argila cinza que suga a perna em cada passada dada. Esse pequeno trecho se estende da cancela da Roça do Jatobá até próximo da cancela do cajueiro. Não poderia uma laminha daquelas se antepor ao nosso tenaz sertanejo. Acompanhado por seu cachorro, segurou as sandálias na mão e enfrentou o terreno passo a passo. Mas a perna, que nunca fraquejara, não teve forças para se manter em pé e o Homem tombou desacordado na poça de águas barrentas.

 

Quando acordou, a perna estava atolada na lama até a canela. Em vão se esforçava para arrancá-la da argila encharcada. A terra lhe sugava. Não queria deixa-lo ir. O sol estava inclemente e a água fervia. Tentou mais uma vez sair: segurou a cerca com a mão para ter mais apoio e forçar uma levantada do corpo. Não conseguiu. Parece que tem dias que tudo conspira contra nós, pois ninguém apareceu para ajudar-lhe. Nenhum pedestre, nem alma, nem corrente. Somente o cachorro o olhava penalizado. Era um fiel escudeiro mesmo sem ter como ajuda-lo. Não abandonaria seu companheiro numa hora dessas. Ficou de um lado para o outro, angustiado, olhando suas patas inúteis. Precisava ajudar. Mas, como?

 

E as horas passavam como um conta-gotas de soro fisiológico. E a terra continuava sugando. Passara sua vida inteira se alimentando do que nela produzira. Na juventude deve ter cruzado muitas vezes aquele trecho de lama. Porém, agora, a terra lhe afrontava: vamos, quero ver você se soltar! Nós nos pertencemos. Vamos, se solta. A perna afundava na lama e a água se entranhava na carne.

 

Em casa já se perguntavam por onde andaria seu patriarca. Entretanto, era uma preocupação despreocupada. Podia ser que ele tivesse encontrado alguém e ficara proseando até bater a fome. A vida no sítio não tem pressa. De manhã demora dá meio dia. De tarde é um mormaço que não passa e de noite uma cantiga de grilo embala as histórias no meio do terreiro. Ele vai chegar daqui a pouco, pode esperar.

 

Nenhum gemido. Nenhuma lástima. Estava deitado na lama a mais de três horas. Resignara-se. Tinha olhado para todos os lados do corredor em busca de alguém para ajudar-lhe, em vão. Somente o cachorro ainda não o tinha desanimado. Súbito, uma luz de inteligência acometera o canino. Ou quem sabe a providência divina tenha se compadecido daquela viv’alma e dotara o cão de um lampejo intelectivo. Ou quem sabe  apenas tenha sentido fome como qualquer ser vivo sente. O certo é que partiu em busca de casa. Agora o nosso inestimável sertanejo estava só, encharcado até a raiz da alma. Mas nenhum gemido, nenhuma lástima.

 

Na casinha estranharam o cachorro ter voltado sozinho, isso nunca tinha acontecido. Estranharam também que não tenha se dirigido diretamente para a sua tigela de comida. Ficara sentado sobre as patas traseiras olhando para um dos filhos do patriarcado. Algo tinha acontecido.

 

Desfalecido. Assim encontraram o Senhor. Desfalecido. Mas ainda vivo.

 

Aparentemente tudo voltara ao normal. No entanto, nos dias posteriores reclamou de uma dor de cabeça. Dois meses de cefaléia. Possivelmente um edema causado na queda. O corpo padecia aos pouquinhos. Levaram-no à Capital. Cirurgia encefalocraniana. Os resultados não foram satisfatórios. Nós nos pertencemos. Voltaram para o sertão. Nós nos pertencemos. Desejara descansar em paz em sua casa. Assim o fizeram.

 

Aos dezoito dias do terceiro mês de dois mil e dez anos de nosso senhor, sua carne descansou em seu leito e o sopro divino suspirou por lugares temidos pelas almas encarnadas.

 

Nós nos pertencemos. Restaram-lhes a terra, a água e as lágrimas.

 

Anacleto Vieira de Sousa

Cajazeiras, PB, 16 de abril de 2010.

 



Escrito por o poeta amargurado às 21h37
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A todos  e todas que acompanham este blog peço desculpas. Esta semana não tive condições de terminar a crônica, faltou criatividade e tempo para criar. Mas prometo terminá-la antes de domingo. Agradeço a compreensão dos estimados leitores e leitoras deste malfadado diário eletrônico.

 

Anacleto Vieira de Sousa

Cajazeiras, PB, 15 de abril de 2010.  



Escrito por o poeta amargurado às 20h59
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CCXXXI

 

 

Era lua cheia quando, para nós juntinhos morarmos,

Construí uma casa com sonhos.

Numa noite minguante, surtei. Bastou para desmoronarmos.

 

 

Anacleto Vieira de Sousa.

Cajazeiras, PB, 07 de junho de 2005.

Poema revisado em 13 de abril de 2010.



Escrito por o poeta amargurado às 21h11
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Caiçarianas: Homenagem ao Homem Sério (Parte III)

 

O nosso honrado senhor era um excelente sertanejo. Sempre que caía umas poucas gotas de chuva logo tratava de ir cuidar dumas terras lá para as bandas do sudoeste do sítio, às margens de um corredor – é como chamamos as estradas entre duas cercas de arame farpado que delimitam as propriedades – que dava no Pedregulho, outra comunidade das nossas cercanias. Sustentara toda sua família com o alimento tirado da labuta sob o sol inclemente do nosso alto-sertão.

 

Quando sentia o bafo quente da terra molhada, depois de meses de calor e seca, saia para a roça cuidar das terras. Não se pode perder tempo. Cortar o mato seco, queimar coivara e passar a capinadeira, eram rituais imprescindíveis antes da plantação. Estando a terra pronta, o agricultor direciona sua atenção para observar o melhor dia para se plantar. Tornava-se um verdadeiro meteorologista.

 

Que negócio de El Niño o quê?! La Niña?! Que diabo é isso?! Massa de ar frio, vinda do sul do Atlântico, que se choca com a massa de ar quente do continente?! O que diabo isso quer dizer?! Não quer dizer nada para o caboclo experiente. Quem fala com o sertanejo são os sapos, as formigas, as Mães da Lua, a Estrela D’alva, a Lua, Santa Luzia, São José....

 

Já eu, coitado, sou um analfabeto tanto nestas artes populares quanto nas artes científicas. Para mim é o seguinte: tem que surgir um turrião no nascente, aquelas longas torres de nuvem escura com um bocado de relâmpago de matar elefante, e só acredito que está chovendo quando o aguaceiro começa a cair.    

 

Naquele pequeno terreno do sudoeste tinha um cajueiro grande e velho. Suas galhas se estendiam pesadas pelo chão. Parecia uma tenda de circo de tão fechada que era sua redoma de folhagens. À noitinha, diziam que coisas assombrosas aconteciam nestas terras.

 

Certo dia, no silêncio da noite, um jovem saiu do Pedrulho para a Caiçara. Só se ouvia as batidas das chinelas nos calcanhares do pedestre naquele corredor escuro. Lepo, lepo, lepo, lepo, lepo... Na nuca um arrepio descia pela espinha até o calcanhar. Uma vontade danada de correr. Mas não corria. Sou homem, oxente! Tlem, tlem, tlem... correntes se arrastavam e um bafo frio fungava no seu pescoço. Tlem, tlem, tlem, tlem, tlem tlem...... Uma vontade danada de olhar para trás. A coragem não deixava. Tlem, tlem, tlem, tlem, tlem tlem... E se tivesse alguém atrás? O que faria? Melhor não olhar. Continuou a caminhar. Lepolepolepolepolepolepolepolepo... Parecia um motor a óleo aquele barulho das chinelas batendo tão rápido no calcanhar. E o barulho da corrente continuava se aproximando. Contudo, o nosso intrépido viajante, se manteve caminhando firme, mesmo com o tlem tlem das correntes no seu encalço, até o corredor da entrada do Rabo da Gata, um corredor que dá acesso à casa do meu tio-avô pelo lado sul, perto do curral. Não correu não senhor, segundo ele: Sou  homem, oxente!

 

O fato nos foi narrado pelo nosso amigo das cercanias dias depois do acontecido. Era boca da noite, tínhamos acabado de terminar um jogo no campinho da passagem, estávamos bebendo água na casinha. O dono da terra que ouvia tudo retrucou: Eu nunca vi e ouvi nada pra’quelas bandas, isso é estória de medroso. Tenho a impressão que o velho sertanejo estava com a razão. O certo é que, neste dia que o malandro contou a ocorrência, a passagem Maria de Jesus registrou o banho coletivo mais rápido da sua história. Teve nego que só molhou as pernas e o rosto, sem tirar a roupa, com medo de que lhe deixassem sozinho.

 

No entanto, é de bom alvitre que se registre uma outra versão da história. Parece que, diante da insistência do malassombro, o nosso amigo não teve outro jeito, soltou um berro: Mamãeeeeeeeee! E disparou na carreira até chegar na Barriga da Gata. Só não correu mais porque lhe seguraram, senão ele tinha chegado sabe-se lá onde.

 

Imagino o quanto nosso intrépido sertanejo não deve ter sorrido das presepadas desses borra-calças de meia tigela. E ainda me chamava de Capitão.

 

Capitão. Você ainda vai ser Capitão de Polícia – professava confiante. Pois não é que estou na polícia?! Embora não morra de amores pela profissão, ela tem dado lá minhas alegrias e tantas outras tristezas. Na época em que ele me afirmava essa sina eu não desejava isso não. Mas, cá estou seguindo o vaticínio popular.

 

Já é capitão? Perguntou-me, com sua voz grave e solene, na última vez que o vi sentado numa cadeira de balanço, lá no alpendre da casa de um tio-avô meu. Ainda não sou capitão não. Nem sei se serei. Mas tomara que Deus ouça as palavras do senhor. Respondi-lhe com um sorriso de quem fica encabulado e lisonjeado ao mesmo tempo. Você vai ser é capitão, rapaz. A franqueza na voz me causou arrepios na alma.

 

(continua)

 

Anacleto Vieira de Sousa

Cajazeiras, PB, 08 de abril de 2010. Já transcorreram vinte e dois dias desde que ele foi conversar com São José.

 

 

 



Escrito por o poeta amargurado às 19h09
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MERETRICULAE

 

Tremulamente segurei tua mão

Em busca de um calor sobre-humano,

Só que o que encontrei debaixo do pano

Não passa de uma pele sem paixão.

 

Foi então que te agarrei com firmeza

Para que enfim sentisses meu calor,

Para que fundíssemos com meu furor,

Afastando de vez minha tristeza.

 

Mas que frieza é essa que não sente

A minha quente pujança sangüínea,

O pulsar dessas veias no seu ventre?

 

Fiquei tal qual um caçador caçado.

Parei um tempo pensando, e em seguida,

Dei-lhe as costas e me afastei calado.

 

Anacleto Vieira de Sousa

Cajazeiras, PB, 2008.

 



Escrito por o poeta amargurado às 16h58
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Caiçarianas: Homenagem ao Homem Sério (Parte II)

 

Antes de chegar a tão esperada Luz Elétrica no Rabo da Gata – nomenclatura que explicarei num outro post –, a hidratação de pequenos pomares ficava por conta do galão d’água. Galão d’água era – ou será que ainda é? – um equipamento imprescindível para o abastecimento das taperas do sítio. Consistia numa vara comprida com cavados nas duas pontas de onde pendia, em cada cavado, uma corda, ou uma corrente de bicicleta, que se estendia até um pedaço de pau cruzado numa lata de querosene que cabia um volume em torno de dezoito litros. Hoje podemos ver pequenos motores elétricos realizando esse serviço outrora feito pelo homem. Graças a Deus! Eu nunca consegui levantar um galão cheio, sempre estava pela metade, e, como não tinha muita habilidade para caminhar com o peso, derramava boa parte no trajeto. Assim, daqui que chegasse onde tinha de chegar, três quartos já tinham ido embora.

 

Para o Homem Sério o cuidado com as plantas era um sacerdócio, pois, além da casinha, ele tinha um terreno em volta dela que se estendia até a beira do rio, tinha até uma bocaina própria. Essa bocaina servia não só para matar a sede dos animais e para o consumo humano, como também para aguar um belo pomar à beira do rio que ele cuidava com muito esmero. Goiaba da china, goiaba vermelha, mangueira, bananeira, cajueiro, tudo isso tinha no pomar. E tinha gente que pulava a cerca no trecho próximo da Passagem para furtar algumas frutas. Por pura molecagem. Ele nunca negava uma fruta a quem lhe pedisse. Só se não fosse o tempo. Aí ele dizia para esperar amadurecer. Mas, no afã de uma traquinagem, não respeitávamos a valorosa labuta do nosso trabalhador do campo e furtávamos as frutas ainda de vez. Digo isso por experiência própria de mão dupla. Não conto os dias em que ajudava um de seus filhos a aguar o pomar. Que trabalheira. 

 

O dono do pomar, no alto de sua envergadura da magra silhueta, para lá de mais d’um metro e setenta e cinco, suspendia um galão d’água sem ao menos tremer as pernas. Com essa vara cruzada no ombro e as latas cheias até a boca, ele caminhava em passos rápidos, porém precisos, uma distância de cinqüenta a cem metros, da bocaina até o pomar. Esse ritual, ao que parece, era realizado toda manhã, logo cedo, e toda tardinha, quando o sol se punha para o descanso noturno. Uma, duas, três, quatro... quantas viagens fossem necessárias, ele as dava. Não reclamava. E quando reclamava era por falta d’água.

 

Com esse mesmo zelo tratava as plantas do Grupo Escolar do sítio. Claro. Ora essa! Ele também era guarda e zelador daquele antro de conhecimento lingüístico e matemático. Se não me engano, seu turno era o da tarde. Mas, pode ser que tenha trabalhado pela manhã. O importante é que era funcionário do estado e prestava serviço naquela instituição educacional. Ia de casa para a escola numa bicicleta. Uma monark. Barra circular.  Tão bem cuidada que um colecionador de Ferraris teria inveja.

 

A bicicleta era um meio de transporte muito usado pela comuna. Depois vieram as motocicletas. Barata, de fácil manutenção e econômica, a bicicleta não precisava nem de combustível, nem de algumas tarefas de terras para alimentar o estômago insaciável dos eqüinos. Bastava a força hercúlea dos seus próprios donos. E observem o seguinte: quando alguma peça se desgastava era usada de uma outra maneira, mas nunca se jogava fora de um tudo. Exemplo disso é a corrente que servia de cabo de força para os galões d’água e os raios que serviam pra fazer gaiola de prender passarinho, sem contar que alguns comunas usavam as esferas do rolamento como chumbo de espingarda bate-bucha.

 

Pois bem, o nosso zelador da escola também tinha uma bicicleta, e montava nela mantendo sempre a coluna reta, dura. Era fato inusitado o seu jeito de montar. Para conseguir uma pedalada, tinha gente que se encurvava todinho, alternando a curvatura para esquerda e para direita,  tentando conseguir mais força, e ainda mordia a língua. Ele não. Usava apenas a força das pernas. Pedalava... pedalava... pedalava... suavemente... falando com todos aqueles que lhe dirigiam a palavra até chegar novamente em sua casa para o seu descanso vespertino.

 

(continua)

 

 

Anacleto Vieira de Sousa

Cajazeiras, PB, 31 de março de 2010. Já transcorreram quatorze dias da sua viagem para o descanso.



Escrito por o poeta amargurado às 07h33
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PRA ISSO TEM ANALGÉSICO

 

Estas novas curvas me perturbam. Mas, vamos em frente.

Buscando as mesmas sensaçõezinhas que a primeira estrada nos deixou.

 

Essas sensações já sentidas, fantásticas, no entanto, não sentimos.

Não maravilhosamente como da primeira vez, não com o mesmo êxtase.

 

E, frustrados pelas curvas que já dobramos, procuramos e procuramos.

E cada vez mais vamos perdendo o desejo e nos distanciando.

 

Sempre assim é. Cada distanciar daqui causa arrepios na espinha.

Padecemos dos mesmos arrepios quando tivemos que sair de lá.

 

Quem me dera não guardar na lembrança a vaga dessa dor que não dói.

Melhor senti-la na carne, entranhada, estocada, todo dia, com’uma lança.

 

Anacleto Vieira de Sousa.

Cajazeiras, PB, 06 de fevereiro de 2009.

 



Escrito por o poeta amargurado às 16h24
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Caiçarianas: Homenagem ao Homem Sério (Parte I)

 

 

A casinha fica perto da Passagem Maria de Jesus. Uma das tantas bocainas do Rio do Peixe que ladeia a nossa comunidade Caiçara. Contudo, embora seja presente em nossa vida, este não é o dia para falar sobre o rio. Hoje, o assunto não me permite. Escreverei apenas os fatos do rio que incorrem na casa. Comumente a conhecemos como A Passagem, assim denominada pois neste ponto o rio tem pouca profundidade, permitindo aqueles caiçarenses que, não se sabe bem o porquê, nunca aprenderam a nadar. Esse ponto do rio está situado no lado norte do sítio. Do outro lado, na outra margem, fica a região que conhecemos por Vargem do Mosquito. Mas ainda não é desta vargem que queremos falar. Hoje a casinha sobrou espaço. Falta-lhe a outra parte da identidade. Falta-lhe o sobrenome que sempre acompanha quando queremos indicar a alguém para onde ir. A Casa de Tio Fulano. A Casa de Tia Sicrana. A casa não era casa, nem se sabia muito menos onde estava, se não tivéssemos seu sobrenome.

 

Quando passávamos as férias na Caiçara, costumávamos jogar bola num campinho que ficava distante alguns metros da Passagem, ao lado da casinha. Sua arquitetura não é muito diferente das outras casinhas do sítio. Uma sala. Ao lado um quarto. Uma cozinha. Ao lado outro quarto. Poderíamos dizer que sua planta baixa é um quadrado dividido em quatro outros quadrados. Sua frente é virada para o sul. Uma porta e uma janela abertas para a sala. Outra janela aberta para o quarto da frente. Uma calçadinha no batente? Não me lembro se tinha, mas me lembro que para entrar precisávamos bater os pés, principalmente no inverno, para tirar a terra. Para aliviar o calor, uma grande algaroba, no oitão do poente, apontava seus galhos para o céu e deixava o chão amarelo de vagem, que os animais, até mesmo nós, comiam por causa do sabor adocicado. E debaixo dela uma carroça empinada esperando o motor cavalar para puxá-la. O campo de futebol fica do lado oeste da estrada que dava na Passagem. Essa estrada, que passa ao lado da algaroba, separa o campo da casa. Eu me pergunto se ainda há traves ali. Faz tanto tempo que não as vejo.

 

No fim das tardes quentes ali nos divertíamos. Suados. Cansados. Sedentos. E para matarmos nossa sede só tínhamos que recorrer à casinha para pedirmos água. Todavia, existia uma disputa invertida: quem teria coragem de pedir água a seu dono?

 

Seu dono não era carrancudo. Não não não. Longe disso. Ele gostava de assistir aos jogos. De ver a molecada caindo e se levantando. À raiva de quem perdeu um gol, ou então do time que perdia, ele dizia que era um jogo. Que devíamos respeitar o amigo e não querer fazer uma guerra por causa da bola. Amanhã seria outro jogo. Outro time, outra vitória.

 

Então, por que o medo?

 

O dono era pessoa sisuda. Séria. Ordeira. Andava sempre ereto. Cabeça erguida e olhar para frente. Olhava no rosto. Quando queria olhar para o lado, girava apenas o pescoço para direcionar a cabeça e o olhar. Passava às léguas da descrição de Euclides da Cunha. Ele não era antes de tudo um forte. Ele era um forte porque era forte. Nunca se curvava. Os ombros sempre austeros. Largos. Duros. Queixo fino e firme, sempre apontando para frente. Não! Não era por arrogância. Era por dignidade. Honra. Pela postura que um homem sempre deve ter. Palavra dada era palavra dada. Para ele não existia explicação quando se fazia uma promessa e não se cumpria. Quem não honrasse o compromisso com ele?! Podia colocar as barbas de molho.

 

Apercebo hoje que não era medo. Era um certo misto de receio e respeito. Nós, moleques sem camisa, tendo a ousadia de invadir seu lar e tomar um caneco d’água. Merecíamos, no mínimo, um carão. No entanto, seriamente nos servia com um litro de água retirada do pote da cozinha ou do pote da sala.

 

 

(continua)

 

 

Anacleto Vieira de Sousa

Cajazeiras, 24 de março de 2010, já se foi uma semana da partida.



Escrito por o poeta amargurado às 19h48
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ENGENHOSAMENTE PERDIDO

 

 

Pelo vidro da janela do ônibus eu via uma multidão de cabeças vermelhas lutando por reforma agrária. Uma briga contra os latifundiários brasileiros, pela liberdade, para terem uma cidadania digna. Queriam o direito de produzir seu sustento no próprio palmo de terra. Não demorou muito, com porretes na mão, um pelotão de polícia veio contra os vermelhos. Vi-me, no meu Sublime Torrão, de cacete em punho, esmagando as rolinhas sedentas que pousavam ao redor do poço d’água.

 

Em minhas lembranças confusas pensei no velho Paulino, em suas atitudes patriarcais de senhor feudal do Santa Rosa. E como esquecer dos famintos servos, moradores das terras do meu avô?! Se os pobres analfabetos do engenho hoje vivessem, estariam ali. Com as cabeças vermelhas: a gemer por um palmo de terra que seja, para construírem um futuro, para saírem da miséria em que viviam. Meu avô bradaria aos quatro ventos que o Governo não poderia permitir esse tipo de desordem: que sempre tratara bem o povo, sua gente. Procuraria seus amigos da capital para não deixarem que a anarquia tomasse conta do Brasil: que era uma injustiça tomarem as terras seculares da sua família: que também não aceitaria que roubassem as que havia conquistado com o seu suor. No entanto, mesmo em seu desespero, não convocaria uma cruzada armada para defender seu reino. Não era das armas. Tinha um “que” de serenidade no seu semblante de sábio senhor de engenho.

 

No engenho, todos eram uma família. Era um aconchego de província. Todo mundo ajuda todo mundo. Teve uma enchente? Lá vai o povo do lugar salvar os desesperados. Um incêndio? Virgem Maria! Acudam! Corram! E aquela multidão de flagelados numa mutualidade comum de miséria.

 

Estou sentado aqui e ninguém me vê. Outro dia, durante um temporal, no qual as águas tomavam as ruas numa ferocidade líquida de quem deseja retomar o terreno ocupado por invasores incautos, tentei agarrar-me a um poste. Em vão. Não houve vivalma que ajudasse. Ainda ouvi o grito de uma mulher:

 

- Liga prus bombeiros! Liga prus bombeiros! Liga prus bombeiros que ele vai morrer.

 

Mas ajudar mesmo?! Não ajudou não.

 

- É pra isso que serve os bombeiros.

 

Outra lástima, que consterna meus olhos, são as crianças. Vivem trancadas em suas casas com medo de tudo. Não têm pomar. As frutas vêm em bandejas de isopor plastificadas. Não tem leite espumoso saindo do ubre da vaca. O leite é pasteurizado, sem micróbios, chega nas suas casas em sacos plásticos, ou engarrafado em recipientes de celulose. O pôr-do-sol é uma visão atrapalhada pelos edifícios dessa engenharia estranha. No pátio dos condomínios, em momentos raros, vi meninos brincando, cercados por grades, iguaizinhos aos bezerros do engenho.

 

Tia Sinhazinha dissera que eu ia endireitar, tomar jeito de homem, deixar de ser um pai d’égua, um libertino. Coitada. Se tivesse visto e ouvido como são os imberbes daqui. Tornam-se pais antes de brotarem pêlos na cara. E as meninas, com seios imperfeitamente formados, amamentam suas crias.

 

E as revoltas?! Meu Deus! Quanto sangue derramado dos meus compatriotas. Os senhores de engenho marchavam contra o Estado para defenderem direitos próprios. Sei muito bem que era ideologia senhorial. Mas de um lado tínhamos o governo e do outro os senhores de engenho. Agora temos as feministas, machistas, homossexuais, ecologistas, direita, esquerda, fundamentalistas, capitalistas, cristãos, iiiiiiiiihhh! Muitas outras. Nem consigo listar. Tantas ideologias que não sabemos qual delas defender.

 

Lá fora, um mar de idéias, aqui, estou trancado na minha melancolia.

 

O trem me levara ao reino encantado do Santa Rosa, também era ele o carrasco que tirara meu bem valioso de menino: a liberdade. A liberdade do não pensar na liberdade.

 

Resta o tio Juca ao lado, a levar-me ao sanatório. Ele pegou delicadamente o braço e conduziu-me à porta do nosso transporte. Descemos à calçada e seguimos para o último reduto. Na entrada, ela aguardava vestida de branco falando severamente:

 

- Juca! Não faça mais isso. Que seja a última vez que leva o Senhor Carlinhos pelas ruas da cidade, aqui já foi Maravilhosa, mas agora é um campo de guerra. E ele já tem quase 90 anos. Você ainda mata ele.

 

- Mas Dona Maria, ele se sente tão preso aqui, tão sozinho que...

 

- Não tem nenhum que ou outro que. Ouviu?! Você é só um enfermeiro...

 

Deixei-os brigando pela minha felicidade. Cada um do seu jeito. Entrei na alcova e descansei placidamente no leito. Eles não ouviram nem a respiração puxada, nem o ronco dos pulmões.

 

Velhinho perdido, velhinho sem engenho.

 

Anacleto Vieira de Sousa

Texto revisado em 22 de março de 2010, Cajazeiras, PB.

 

 



Escrito por o poeta amargurado às 20h01
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ESQUIZOFRENIA

 

Eu queria tanto parar de caminhar.

Ficar sentado sem motivo algum.

Deixar que ficassem minhas idéias em paz.

 

Em frente! Em frente! Em frente!

 

Frenéticas, minhas Pernas seguem:

Dão um passo, outro passo, mais um passo...

São tantos passos que meus Pés se perdem.

 

Quando procurei uma sombra, simplesmente, passaram.

Não pararam quando na lama pus os pés.

Assim, com força, lancei-os raivosamente nos cascalhos.

 

Agudos, redondos e quadrados.

Quentes, frios e bem molhados.

Eram tantos que meus pés sangraram.

 

Mas nunca alcançaram a cura dessas agonias. Não.

Doía em mim as idéias, mas não paravam.

 

Rumavam... rumavam... rumavam... e rumavam...

 

Para onde?

 

Nem sequer Ele, o grande Men, sabia.

Apenas sentia o som frenético das idéias

numa esquizofrênica e eterna sinfonia.

 

Anacleto Vieira de Sousa

O poeta amargurado

29 de outubro de 2009

 



Escrito por o poeta amargurado às 16h45
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CRÔNICAS CAIÇARIANAS

 

Há tempos que desejo registrar fatos envolvendo o povo do meu sítio. Esclareço que Sítio é como denominamos, aqui no interior, pequenas comunidades formadas por agricultores que praticam a agroprodução familiar e são situadas fora dos perímetros urbanos. Este esclarecimento faz-se necessário porque a palavra pode aludir a propriedades privadas que têm o intuito de fomentar a agricultura em média escala, porém, de produção considerável, ou para que seus donos possam veranear nos fins de semana. Um problema vislumbrado nesta tentativa é qual estilo adotar e, principalmente, como não tornar público os nomes envolvidos nas crônicas. Outro problema refere-se a qual ocorrência tem maior relevância do que outra. Ou seja: como narrar e o que narrar? Estas dúvidas sugestionam irremediavelmente uma  outra: estou preparado para narrar?

 

Tomo então duas decisões, neste primeiro momento, óbvias: 1) escrever o que me parecer necessário ficar registrado;  2) narrar ocorrências sem denotar os envolvidos. Nesta perspectiva, os nomes verídicos serão substituídos por nomes fictícios, contudo, para meu próprio entendimento, registrarei uma relação oculta em que apenas este narrador poderá identificar as personagens. Explicado este ponto, informo que, a quem desejar a retirada de certos fatos do blog, ou ainda quiser contar outros acontecimentos, podem manter contato comigo pelo e-mail: kahdor@yahoo.com ou anacletosousa.vieira@bol.com.br. Solicito, somente, que deixem claro o assunto quando postarem a mensagem, pois não costumo ler e-mails que apenas são repetição de outras mensagens, tais como: corrente de amizade, piadas, etc. 

 

Nos finalmente, rogo a alguma musa ociosa que ilumine meu espírito e me ajude a cantar aquilo que nos provocam emoções. Assim, senhoras, senhores, despeço-me e agradeço pela atenção a mim cuidada.

 

 

Anacleto Vieira de Sousa

Cajazeiras, 10 de março de 2010.

 



Escrito por o poeta amargurado às 06h55
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